POIESIS, Vol. XVIII
Introdução
Por: Isabel Rosete
20/11/2009
Pleno de mérito, contudo de um modo poético
Habita o homem esta terra.
Holderlin
Um labirinto de sensibilidades, de seres, de estares… se bifurcam em uma única obra, que é obra única, fruto de um parto intelectual colectivo. Um livro é, sempre, um filho muito desejado, quiçá, mais desejado do que qualquer outro.
Um projecto singular que prima pela diferença, pela criatividade inventiva, pela especificidade dos sentires; um desígnio universal de múltiplos sons, ritmos, e, também, silêncios do dito e do não-dito pela palavra poética, qual forma eminente pela qual a Verdade se manifesta. Assim se pode conceber o Volume XVIII da antologia POIESIS.
Com os deuses ou com os demónios, emergem todas as escritas expostas nesta obra de multíplices semblantes, tão eloquentes quanto vigorosos, enquanto mundivisões específicas interseccionadas.
Nesta obra de arte – um ser vivo e secreto cuja vida imortal acompanha a nossa vida efémera – tão genuína como qualquer outra assim designada, inspira-se o registo particular de mentes coloridas de largos horizontes, onde não habitam, nem o preconceito, nem a hipocrisia; sorve-se a intersecção de saberes-vividos e colhidos na marcha universal do devir do Mundo, aonde se manifestam as grandes questões dos Homens, pela celebração das palavras-de-origem, nas suas mais recônditas dimensões.
O canto ou o ante-cantar das Almas – que neste universo de sensações unas e diversas se expõe – é a revelação das vozes do Pensamento multidimensional, em uníssono e dispersão.
E a Poesia, que nesta obra se exterioriza de diferentes formas? O que diremos dela? Que é, também, POIESIS, seguramente! Ou seja: criação, conceber e dar forma na confirmação perpétua e universal do Mundo; re-creação originária de todos os mundos possíveis; o fluir autêntico das auras, pensadas, impensadas ou impensáveis; o encontro dos Espíritos ainda não ouvidos, ainda não dissecados pelas palavras que dizem os seus juízos de tristeza, de amargura, de encantamento ou de glória perante os insondáveis enigmas que por toda a parte se espalham, e, nem sempre, permanecem incógnitas.
POIESIS é construção e co-criação de um mundo humanamente habitável, sem ocultar o estranho do Homem no seu processo de des-familiarização com a Natureza e o Universo, um pensar interrogativo e, sobretudo, meditativo-reflexivo, que deixa as coisas serem tais como elas são, sem violência, sem o ruído das máquinas, na total ausência dos desequilíbrios ecológicos causados e mantidos pelo infortúnio da técnica moderna.
Pela POIESIS – igualmente um “clocar-em-acção” – abre-se o ainda não-aberto de todas as aberturas possíveis. Emergem todos os des-valamentos e tudo desflora no seu Ser originário. E a Verdade, então, põe-se em obra, eclode, acontece na sua realidade, para além de qualquer ficção.
A Poesia é o agir essencial, epifania, aparição do Ser e do Dizer; um projecto clarificante e não mais um errante vagabundear da imaginação num qualquer espaço irreal. Muito pelo contrário: é o espelho onde se reflectem os diversos rostos, as mais variadas faces ou formas que a Humanidade tem tomado ao longo da sua História de guerra, de paz, de fracasso ou de glória. Nada há que a Poesia não manifeste. Nela se deposita o Espírito dos Tempos, enquanto Fala maior, enquanto Diálogo eternizado e celebrado pela Linguagem universal, que em si mesma é.
Digamos que se trata de um dizer projectante, da fábula do mundo e da terra, a fábula de jogo do seu combate, o lugar de toda a proximidade e afastamento dos deuses (…). A Poesia é a instauração no sentido triplo de oferta, fundação e princípio.
Será esta nobre arte da Linguagem um feito de compaixão temporal? Uma leitura magnânima do que, de facto, acontece? Também! Mas, particularmente, a exaltação da Palavra conciliadora, necessariamente pacificadora ou revolucionária, de intervenção contra as injustiças e outras formas vis.
A Poesia, na medida em que é um corpo comum-espirtual, tudo recolhe na sua matriz e, deste modo, brota para que os segredos da Alma se tornem perceptíveis, para que os mistérios da Natureza se traduzam em formas inteligíveis. Naturalmente, para esclarecer os Homens desgarrados das suas entranhas, para manter viva e lúcida a memória dos Povos, sempre que a nebulosa Esperança teima em se ocultar por entre as garras da indigência, da penúria de um mundo corrompido pelo consumismo exacerbado, pela redutora materialidade, pela exploração técnica e por essa irónica invenção relativista do homem-medida.
Seja carne ou espírito, a fecundidade da Poesia é una, porque a obra do espírito provém da obra da carne e partilha da sua natureza. A obra do espírito é a penas a reprodução, de qualquer modo mais misteriosa, mais plena de êxtase, mais eterna, da obra da carne.
Cada escrito ou acto poético, que este volume integra, é uma viagem aos confins das essências. Por vezes, com rumo certo e determinado. Por vezes, com direcção incerta e inacabada. Mas, indefinidamente possível, na ternura infinda de um qualquer Desejo.
Falai, Poetas! Falei, para todo o sempre!
Seja ou não um fingidor – e seja qual for a forma do seu fingimento – ser Poeta é, sempre, ser mais alto, certamente maior do que os Homens, porque vê claramente visto, porque enxerga para além da miopia dos olhares comuns, apenas envolvidos na trivialidade quotidiana da azafama da sobrevivência, cada vez mais conturbada, vazia do Ser, cheia do Nada, mais pesada e menos pensada.
O Poeta é, por excelência, o Pensador. Poesia e Pensamento enraízam-se na mesma fonte: o amor à palavra com missão salvífica. Porém, o Poeta supera o Pensador, na medida em que está mais rente ao aparecimento original da Verdade como des-velamento, da morada divina que, apesar de tudo, ainda nos acolhe sob este tecto do mundo desvirtuado.
O Poeta é o que primeiro vai mais longe na escuta da interpelação inédita que a todos convoca ao Diálogo, seguindo uma finalidade inalienável: fazer emergir a Luz primogénita que tudo ilumina, até mesmo as mentes opacas, empalidecidas por uma identidade que não é a sua, na presença compartilhada da doçura de um singelo abraço universal.
E porque é, acima de tudo, o Criador, deve ser todo o universo para si próprio, tudo encontrar em si próprio e nessa parcela de Natureza com que se identificou.
Aí está ele – mesmo que invisível como um anjo sem asas – no gérmen da vibração criadora, na semente dos timbres que dão o tom miracular da Existência, de onde surge, como que por magia, o Poema, em toda a sua pujança e liberdade, qual forma singular de uma escrita iniciática, quiçá mística, que nos envolve e afaga como um dom particular de encantamento. Afinal, o que perdura é fundado pela palavra poética.
Deste modo, gera as mais variadas versões-de-mundos, a um tempo, as suas e as nossas, nele reflectidas, nele dadas como um eco das vozes de todos, sem exclusão mútua. Por nós, o Poeta sente! Por nós consente e diz, no cume das mais altas montanhas, os versos que são Vida e Morte, Amor e Dor, Fado, Destino, Caminho(s)…!
Sendo o guerreiro solitário do Poema e ao estender o seu olhar para além do tempo e do espaço finito das outras criaturas, o Poeta respira as vísceras da realidade genuína, absorve-as por todos os poros e expõe-as por uma escrita fina, que integra os mais ínfimos pormenores, no seu incessante peregrinar pelas coisas dos Homens, ex-traviados, cegos e surdos.
Nesse momento vê a Eternidade, o Ilimitado, o Imperecível, o Infinito… Descobre o feitiço do Esfinge, e percebe que a Realidade pode ser, apenas, uma ilusão, uma miragem, ou, tão-só, uma mera sorte imaginável, uma representação.
No entanto, sempre toca o inefável e o inexequível da imaginação na fragmentação da Memória, a sua e de todos os outros, presentes, passados ou vindouros, vivos ou mortos, num estádio mais-que-perfeito.
Em si confina e ergue os gritos acabrunhados. Embrenha-se no interior das coisas-mesmas, extirpando os véus que cobrem a irradiante beleza dos entes puros, e des-vala-os na abertura da clareira de um tempo sempre redondo.
Escutar a sua voz significa regressar aos sons primordiais, acolher o momento único do pulsar da Criação; retornar aos infinitos horizontes do Ser, do Tudo, da Libertação dos sentires libidinais primeiros, um dia, deixados em um qualquer Paraíso perdido, a encontrar…
E assim o Poeta penetra na essência do Universo, sempre que escuta os ultra-sons; sempre que celebra e arrebata a denúncia dos desejos (in)discretos, ressaltados pela embriaguez dionisíaca e pela plasticidade apolínea das formas.
Aí permanece a sua morada, onde confluem todos os habitares, todas as pátrias, todas as línguas e, até mesmo, Deus, sem a ilusão do absoluto ou a mágoa do esquecimento, no silêncio ancestral dos orbes celestes.
Também é o Profeta, uma re-invenção de Prometeu, o portador do fogo divino, que o Todo entrevê e avista num tempo que ainda não é, fora do alcance das gentes, bicéfalas, em dilemáticas forças opostas, vagueantes, sem saber qual o seu rumo ou direcção.
Qual Zaratrusta, é o Poeta! Qual viandante pelas mais dissemelhantes paragens deste cosmos sem fim à vista!
O Poeta ousa todos os desafios, todas hipérboles ou excentricidades emergentes do seu mundo-interior, como forma de compreensão e explicação do mundo-exterior. Não teme as vozes alheias que lançam indignos rumores. Ousa ousar o tudo! Só o Tudo lhe basta! E mais nada! É uma construção de uma vontade-de-poder sem freios!
Com o Mar, a Terra, os Céus, os Mortais ou os Divinos, aí estais, oh Poetas da POIESIS! A Todos vós, um grande Bem-hajam. Não imaginais como vos amo e venero!
Até à próxima viagem!
Isabel Rosete
Um espaço de investigação, de escrita e de crítica literária; uma homenagem a todos os ecritores, nacionais e internacionais, que marcaram o meu percurso pessoal e profissional no domínio da Literatura.
quarta-feira, 3 de março de 2010
CONVITE
As Edições Ecopy têm o prazer de o convidar para a sessão de lançamento do livro "Vozes do Pensamento" da autoria de Isabel Rosete, que se realiza na Livraria Leitura books & living, no centro comercial Cidade do Porto, no próximo dia 20 de Março de 2010, pelas 21.30h.
A sessão contará com a presença do Dr. Ângelo Rodrigues e com a leitura de alguns poemas pelo Grupo Poético de Aveiro.
Isabel Rosete/Edições Ecopy
As Edições Ecopy têm o prazer de o convidar para a sessão de lançamento do livro "Vozes do Pensamento" da autoria de Isabel Rosete, que se realiza na Livraria Leitura books & living, no centro comercial Cidade do Porto, no próximo dia 20 de Março de 2010, pelas 21.30h.
A sessão contará com a presença do Dr. Ângelo Rodrigues e com a leitura de alguns poemas pelo Grupo Poético de Aveiro.
Isabel Rosete/Edições Ecopy

Vozes do Pensamento, a primeira obra individual que Isabel Rosete publica em Portugal, exterioriza, precisamente, e como o próprio título indica, as vozes que há muito ecoam dentro do seu pensamento, que viaja, por vezes, hiperbolicamente, por todos os lugares, nessa eterna busca pela verdade e pela sabedoria, pelas essências das coisas que, amiúde, se nos ocultam. Talvez esteja a fazer Filosofia através da poesia, como sugerem alguns dos seus leitores. Trata-se de um desabafo da sua alma e do seu corpo sobre si mesma, e sobre o mundo, tal como ele é e se lhe apresenta em todas as suas dimensões que, quiçá, corresponde a muitos desabafos da grande generalidade dos seres humanos.
É um livro intimista e altruísta, onde os actos ignóbeis dos homens são condenados, dos pontos de vista ético, social e político, e os seus nobre feitos celebrados.

ALQUIMIAS
De Ângelo Rodrigues
Por Isabel Rosete
Erotismo, sensualidade, irreverência imagética, mesclados por um pensamento de fertilidade singular, que sempre tenta fugir à vulgaridade, ao ridículo do dizer comum das frases feitas, para isto ou para àquilo, tanto na presença dos temas ordinários, como perante a manifestação dos mais insólitos ou hilariantes, são os traços unificadores de Alquimias.
Entre a tanga e a treta ou a treta e a tanga (tanto faz!), entre Deus e o Diabo, ou qualquer outra silhueta do género, Ângelo Rodrigues caminha rumo a uma realidade realista (o pleonasmo é propositado) e quase-surrealista, num dizer marcado por uma poética da sensibilidade dos interstícios. Vai às entranhas do trivial e extrai-lhes o sumo e o miolo. Nada passa despercebido aos seus olhos microscópios inscritos numa alma de filósofo. Sim, de filósofo! Aquele que vê para além das aparências e que, tal como o poeta, que também é, sorve os pormenores das coisas-mesmas na sua essência primogénita.
Homens, mulheres, meninas, vampiros e outras criaturas que tais, estão, ao mesmo tempo que pairam e vagueiam, pelas páginas desta antologia policromática e multiforme. Mas, não são os únicos! Também há a Deolinda, os extra-terrestres, a vizinha do lado, o Sebastião e o Sócrates, o Soares e o Manel Feijão que, em competição ou não, partilham o mesmo “esperma sagrado” em qualquer “tourada à portuguesa”.
Espelhos e sonhos, bruxas e papas (sejam lá de quê!) envolvidos em estórias de incógnitas, mistérios, enigmas, por vezes esfíngicos, convidam o leitor a uma saga onde a Palavra – em poesia ou em prosa – fala mais alto, entre os anjos e os homens, entre o céu e o inferno. Mas antes, detenhamo-nos num passo intermédio: o Purgatório, onde os primeiros pecados são redimidos. E depois? Avança-se rumo ao infinito próximo da mortalidade a que estamos, irremediavelmente, sujeitos.
Todos os caminhos de bifurcam por entre o céu azul, a procura da verdade, algures por encontrar, no campo ou na cidade, em qualquer espaço deste mundo, ora visível, ora empoeirado ou enevoado, delimitado por um Tempo que sempre passa e só volta no ressurgimento das memórias do cantar e do celebrar.
Alquimias é, ainda, o esconderijo de muitos segredos onde o autor se revela, de um modo peculiar, também pelas letras das suas canções. Ao pensar e ao poetar, junta-se o musicar. A arte das musas, na sua linguagem universal, circunda o espírito do autor ávido do dito e do não-dito, acompanhado pelas aves do seu paraíso ou pelo cavaleiro das estrelas de um céu claro que lhe/nos indica um certo Destino.
Inventemos, exorcizemos…ousemos uma outra linguagem ou até uma meta-linguagem, de um certo ponto de vista, para dizer o aparentemente inefável, o que é encoberto por um pudor inexplicável, como se tudo no Homem e na Vida não fosse pura naturalidade. É este, seguramente, um dos grandes apelos de Ângelo Rodrigues, sempre para além ou para aquém de qualquer máscara ou dissimulação.
Um espírito sensível e sensibilizado, dialogante e afinado, como é o do autor, abrange e espalha-se por todos os lugares, até mesmo por aqueles que se mostram mais inacessíveis. Acompanha os passeios de Deus e os da Humanidade, bailando no centro das almas, nem sempre dispersas. Está, aí, em parte certa ou incerta, a escutar o Mundo na sua máxima exuberância ou esplendor, como Dionísio, em pleno estado de embriaguez, nas entranhas da Terra, sentindo com os instintos sem afastar a Razão, movendo-se pelo excesso (medido) de todas as hipérboles, ousadas ou não ousadas, mas sempre personificadas e presentificadas nas frontes de todas as noites iluminadas, esperando, expectante, na face oculta do Mistério.
Consagra-se como poeta, e como os poetas, aos silêncios falantes e à peregrinação, inevitável a todos os seres humanos, no campo da Verdade e da Imortalidade, num Éden, outrora perdido, que urge, agora, re-inventar.
Rejeita o tédio e a claustrofobia quotidiana para que não se lhe esgote a alma. Também busca o Amor, tomado como um propósito determinado e um fado (o fado fadado de todos os homens, sem excepção alguma), como uma força implacável que o move, consciente ou inconscientemente, sem eufemismos, na presença do perfume das rosas.
Aqui está, Ângelo Rodrigues, com as suas Alquimias, uma obra de um ecletismo incomparável – conto, poesia, prosa, canções, entrevistas, aforismos, filosofias e outras coisas que tais – acompanhado pelo desejo do Todo, da Plenitude, porém com impaciência, numa espécie de catarsis musical proporcionada pela linguagem das aves migratórias, tão errantes como ele próprio, que ao seu ouvido sussurram, iniciando-lhe e iniciando-nos uma espécie de terapia poética, rondante dos limiares do absoluto, entre os domínios da vida e da Morte, nem sempre em silêncio, nem sempre em oração.
E assim escapa às encruzilhadas paralelas do labirinto do Minotauro, pisando o fio de Ariana visível, quiçá, em qualquer noite de Lua cheia, de onde o nevoeiro se afasta, definitivamente. E porquê? “Porque sim!” Sem perplexão.
Bebamos mais um sonho possível na lúcida loucura das palavras inebriantes deste mago dos mais indecifráveis enigmas, entre o céu e a terra, os mortais e os divinos, num eterno-retorno do outro e do mesmo, por vezes, num certo lastro de dúvida metódica.
Isabel Rosete
Janeiro de 2009

Um «Passeio de Deus»
Por Isabel Rosete
Um «O Passeio de Deus»: O Dele, o seu, caro leitor, também o meu e, quiçá, o de mais meia dúzia de criaturas incógnitas, espalhadas, perdidas… por este Mundo, nem sempre com rosto próprio.
A hipocrisia acobarda as mentes das gentes pequenas, sempre com medo de erguerem as suas vozes; o "politicamente correcto" (odeio clichés) cala o dizer aberto dos tachistas por mero compadrio.
Ângelo Rodrigues mostra-se como o arauto des-construtor desta farsa boçal, bastarda e brejeira, que é o Mundo, que naturalmente escapa, que é obviamente invisível aos olhos míopes, aos ouvidos ensurdecidos dos espíritos adormecidos pelo convencionalmente imposto, aos espíritos castrados por um dito puritanismo que, claustrofobicamente, lhes esmaga a possibilidade de uma respiração oxigenada.
Ângelo Rodrigues, no seu «Passeio de Deus» (ou com Deus), é a mais perfeita antítese desta miserável constatação de uma humanidade terrivelmente apática, incapaz de rodopiar nas franjas do seu próprio círculo, imperfeito; de uma humanidade que sobrevive na latência de uma consciência que, a si mesma, já não se conhece.
Ângelo Rodrigues pega o toiro pelos cornos, com a nobreza de todas as pegas de caras. Jamais se emaranha nas labirínticas teias da dissimulação ou do dizer demagógico. A sua Alma epifaniza-se na transparência do seu próprio pensamento astuto, redondo, sem pré-conceitos, e no seu dizer sem freios.
Todas as palavras, que para o papel em branco transporta, estão, sempre, no seu devido lugar, sem eufemismos, sem rodeios, sem intenções en-cobertas.
A Verdade des-vela-se nos seus poemas e nos seus aforismos, bem à maneira heideggeriana, por mais "absurda" ou "risível" que seja.
Há, na escrita deste homem, a mão de Diónisos, a embriaguez catártica do deus que co-habita nas entranhas Terra, que promove, apologeticamente, o instintivo, o visceral, o libidinal, na sua clareza absoluta, "para além do bem e do mal", afastando a censura tirânica do Supre-Ego, a ilusória beleza e pseudo-perfeição das formas de Apolo, que ludibriam o território dos simples mortais, bi-céfalos.
Também eu aceitei o convite de me tornar "argonauta", embarcando, sem receios, na nave que «mostrará os novos universos poéticos criados pelo autor». Assim estou lendo «O Passeio de Deus».
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Isabel Rosete dá entrevista ao "Diário de Aveiro" (18/02/2010)
“A Filosofia devia ser um dos pilares da política”
Isabel Rosete, cuja vida tem sido dedicada à Filosofia, é autora de várias obras poético-literárias, preparando-se para publicar outras três em breve
Carla Real
Com 45 anos, Isabel Rosete, de Aveiro, possui um mestrado em “Estética e Filosofia da Arte”, é doutoranda na mesma área. Professora de Filosofia, é também responsável pela publicação de várias obras poético-literárias e de cariz científico.
Porque decidiu enveredar pela área da Filosofia?
A Filosofia tornou-se uma verdadeira paixão (eterna), desde o meu 11.o ano. Tive a sorte de me ter cruzado, nessa altura, com dois professores extraordinários, que, até hoje, recordo como autênticos modelos do que é ser, de facto, professor de Filosofia: sabiam o que é a Filosofia, qual a sua real utilidade e como a ensinar, devidamente, aos adolescentes em formação pessoal e social continuada.
Mostraram-me como a Filosofia é absolutamente imprescindível na vida quotidiana, porque só fala do que é e de quem é o Homem, do seu ser e do seu estar consigo mesmo, com os outros homens, com a Natureza e com o Universo; que é essa radical e abrangente área do saber que mostra todas as coisas tal como são na sua autenticidade, rompendo os ignóbeis véus das aparências, sem preconceitos de qualquer espécie, quais cancros que minam, cada vez mais, a sociedade presente, lamentavelmente afastada das lides filosóficas.
Demonstraram-me que a Filosofia é, primeiro: a própria vida em todas as dimensões, e que, por conseguinte, viver sem ela, não é propriamente viver, mas, tão-só, sobreviver de olhos cegos e ouvidos surdos; e segundo: o maior e mais nutritivo alimento do espírito, do pensamento, a que, afinal, nós, Homens, nos reduzimos, sem esses abstraccionismos linguísticos ou conceptuais que lhe costumam atribuir.
E a Psicologia? Quando aparece?
A Psicologia surgiu por arrastamento, embora como um complemento integrante e indispensável da própria Filosofia, sempre com ela interseccionada. Esta outra paixão (também eterna e em crescendo), surgiu quando frequentava o 10.o ano. E, tal como a paixão pela Filosofia, intensificou-se profundamente enquanto cursava a licenciatura de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde tive o privilégio de ser aluna de grandes mestres, de conviver com verdadeiros professores, igualmente modelos de docência, a quem devo tudo o que sei e sou hoje.
A Isabel destaca-se pela forma peculiar como aborda a cadeira de Filosofia, muitas vezes considerada “monótona” pelos alunos. Como faz para os cativar para essas matérias?
Transmitindo-lhes o entusiasmo, plenamente vivo e sentido que, em mim, a Filosofia fez emergir, pela sua irredutível necessidade e utilidade permanente. A Filosofia, que só deve ser leccionada pelos profissionais portadores da convicção do ser filósofo e não por aqueles apanhados pelas negras malhas que regem o docente-funcionário público, “cumpridor” de programas para as estatísticas, é um bálsamo para as novas mentes em formação, e não mais uma actividade supérflua ou um conjunto de ideias abstractas reservadas a uma determinada elite.
Esse cliché de que a Filosofia é “abstracta” surgiu daqueles que subverteram a sua essência em virtude de uma leccionação “monótona”, resultante, não da Filosofia em si, mas de um mero e terrível papaguear de conhecimentos exclusivamente a partir de um manual escolar, sem criatividade de materiais e de estratégias didácticas que estimulem os alunos para o crucial acto de pensar.
O Portugal de hoje é um exemplo, “claramente visto”, da ausência desta atitude nos políticos que nos (des)governam. Esta é uma constatação convicta da real e urgente necessidade da Filosofia como um dos pilares fundamentais onde a política deve alicerçar-se.
O verdadeiro professor de Filosofia é, por essência, um pedagogo, um guia, um orientador que auxilia os alunos nos respectivos partos intelectuais, que os estimula a parir ideias que, nas suas mentes, estavam em estado de latência e que, por esta forma de amor à sabedoria, são espicaçadas e, então, brotam para o estado manifesto.
Descreva, sucintamente, as obras poético-literárias que publicou até agora.
São obras de cariz eminentemente filosófico. Aliás, devo confessar-lhe que foi justamente a Filosofia, assim sentida e vivida, que me abriu o caminho para a poesia, para a prosa poética e para a literatura. Estas sementes começaram a germinar com mais visibilidade aquando da feitura do curso de mestrado em “Estética e Filosofia da Arte” e, sobretudo, durante as investigações realizadas para a tese de Doutoramento em curso, dedicada – a partir do pensamento de Martin Heidegger – à poesia e ao canto dos poetas, perspectivado ecologicamente.
Concebe-se a poesia enquanto forma privilegiada da arte se dar (para Heidegger, e para mim também, toda arte é poesia), como a forma explícita de salvaguarda da Terra, como o grande grito universal do pensamento contra as investidas do projecto da ciência-técnica modernas que minam e corrompem a Natureza, provocando constantes desequilíbrios eco-sistemáticos. E, deste modo, como meio de alerta para a necessidade de se redimensionar e reestruturar uma outra humanidade, cujo pensamento não seja mais inconsciente e calculista, e cujas mãos não sejam mais exterminadoras.
Cada obra minha publicada em antologias poético-literárias nacionais e internacionais, exprime estas preocupações, esta minha forma de auscultar o mundo humanamente e em plena harmonia com a Natureza, onde me integro ou não, completamente, quer me refira a “Vide-Verso”, “Roda Mundo 2008”, “Poiesis” ou “Roteiro(s) da Alma”.
Nelas, pode ler-se, entre outras, “Quantos são os mistérios da escrita”, “Nas montanhas do coração” (ensaio sobre o poeta alemão Rainer Maria Rilke), “Advém o turbilhão dos sentidos”, Ouso ousar o tudo”, “Abomino o egocentrismo”…
Qual o tema dominante na sua escrita?
Movo-me por vários temas e autores, de âmbito muito diverso. Tanto escrevo sobre Heidegger, Nietzsche, Kant, Platão, Freud ou Piaget, no âmbito da Filosofia /Psicologia, ou sobre Vergílio Ferreira, Fernando Pessoa(s), Padre António Vieira, Rainer Maria Rilke ou Holderlin, nos domínios da literatura e da poesia.
Talvez por influência dos assuntos centralmente abordados por estes autores, que venho estudando ao longo de todos estes anos, escreva, com particular incidência, sobre a vida e a morte, sobre o estado actual da Humanidade e da Natureza, sobre a linguagem, o pensamento e o acto de escrever, sobre o amor, o mistério, a criatividade, a arte ou a identidade, a hipocrisia, os preconceitos e a inveja, que muito me atormentam…
Como caracteriza a sua próxima obra “Vozes do Pensamento – Uma Obra para Espíritos Críticos”, cujo lançamento está previsto para o próximo mês?
Esta obra, a primeira individual que publico em Portugal, composta por duas partes, “Interiores” e “Versões de Mundos”, exterioriza, precisamente, e como o próprio título indica, as vozes que há muito ecoam dentro do meu pensamento, que viaja, por vezes, hiperbolicamente, por todos os lugares, nessa eterna busca pela verdade e pela sabedoria, pelas essências das coisas que, amiúde, se nos ocultam. Talvez esteja a fazer Filosofia através da poesia, como sugerem alguns dos meus leitores.
São pensamentos dispersos, vividos e por viver, projectados, sonhados ou recordados, sobre temas que o meu pensamento foi ditando e as minhas mãos escreveram.
Trata-se de um desabafo da minha alma e do meu corpo sobre mim mesma, e sobre o mundo, tal como ele é e se me apresenta em todas as suas dimensões que, quiçá, corresponde a muitos desabafos da grande generalidade dos seres humanos.
É um livro intimista, onde podem ler-me, integralmente, na mais pura transparência do meu (vosso!?) ser e existir, pensar e sentir. Também altruísta, onde os actos ignóbeis dos homens são condenados, dos pontos de vista ético, social e político, e os seus nobre feitos celebrados.
Nada mais vou adiantar sobre este livro, para que os meus eventuais leitores (espero que sejam muitos), adolescentes, jovens e adultos, descubram, por si próprios, o espírito que o percorre e, quiçá, nele se vejam ou revejam, como num espelho, e se redescubram, sem narcisismo.
Estas “Vozes” ainda não se silenciaram. Far-se-ão ouvir, ainda mais alargadamente, nos meus próximos três livros, já no prelo: “Entre-Corpos”, “Fluxos da Memória” e “Mundos do Ser e do Não-Ser”.
LEGENDA DR: “Lamentavelmente, a sociedade actual está afastada das lides filosóficas”
FIM
Isabel Rosete, cuja vida tem sido dedicada à Filosofia, é autora de várias obras poético-literárias, preparando-se para publicar outras três em breve
Carla Real
Com 45 anos, Isabel Rosete, de Aveiro, possui um mestrado em “Estética e Filosofia da Arte”, é doutoranda na mesma área. Professora de Filosofia, é também responsável pela publicação de várias obras poético-literárias e de cariz científico.
Porque decidiu enveredar pela área da Filosofia?
A Filosofia tornou-se uma verdadeira paixão (eterna), desde o meu 11.o ano. Tive a sorte de me ter cruzado, nessa altura, com dois professores extraordinários, que, até hoje, recordo como autênticos modelos do que é ser, de facto, professor de Filosofia: sabiam o que é a Filosofia, qual a sua real utilidade e como a ensinar, devidamente, aos adolescentes em formação pessoal e social continuada.
Mostraram-me como a Filosofia é absolutamente imprescindível na vida quotidiana, porque só fala do que é e de quem é o Homem, do seu ser e do seu estar consigo mesmo, com os outros homens, com a Natureza e com o Universo; que é essa radical e abrangente área do saber que mostra todas as coisas tal como são na sua autenticidade, rompendo os ignóbeis véus das aparências, sem preconceitos de qualquer espécie, quais cancros que minam, cada vez mais, a sociedade presente, lamentavelmente afastada das lides filosóficas.
Demonstraram-me que a Filosofia é, primeiro: a própria vida em todas as dimensões, e que, por conseguinte, viver sem ela, não é propriamente viver, mas, tão-só, sobreviver de olhos cegos e ouvidos surdos; e segundo: o maior e mais nutritivo alimento do espírito, do pensamento, a que, afinal, nós, Homens, nos reduzimos, sem esses abstraccionismos linguísticos ou conceptuais que lhe costumam atribuir.
E a Psicologia? Quando aparece?
A Psicologia surgiu por arrastamento, embora como um complemento integrante e indispensável da própria Filosofia, sempre com ela interseccionada. Esta outra paixão (também eterna e em crescendo), surgiu quando frequentava o 10.o ano. E, tal como a paixão pela Filosofia, intensificou-se profundamente enquanto cursava a licenciatura de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde tive o privilégio de ser aluna de grandes mestres, de conviver com verdadeiros professores, igualmente modelos de docência, a quem devo tudo o que sei e sou hoje.
A Isabel destaca-se pela forma peculiar como aborda a cadeira de Filosofia, muitas vezes considerada “monótona” pelos alunos. Como faz para os cativar para essas matérias?
Transmitindo-lhes o entusiasmo, plenamente vivo e sentido que, em mim, a Filosofia fez emergir, pela sua irredutível necessidade e utilidade permanente. A Filosofia, que só deve ser leccionada pelos profissionais portadores da convicção do ser filósofo e não por aqueles apanhados pelas negras malhas que regem o docente-funcionário público, “cumpridor” de programas para as estatísticas, é um bálsamo para as novas mentes em formação, e não mais uma actividade supérflua ou um conjunto de ideias abstractas reservadas a uma determinada elite.
Esse cliché de que a Filosofia é “abstracta” surgiu daqueles que subverteram a sua essência em virtude de uma leccionação “monótona”, resultante, não da Filosofia em si, mas de um mero e terrível papaguear de conhecimentos exclusivamente a partir de um manual escolar, sem criatividade de materiais e de estratégias didácticas que estimulem os alunos para o crucial acto de pensar.
O Portugal de hoje é um exemplo, “claramente visto”, da ausência desta atitude nos políticos que nos (des)governam. Esta é uma constatação convicta da real e urgente necessidade da Filosofia como um dos pilares fundamentais onde a política deve alicerçar-se.
O verdadeiro professor de Filosofia é, por essência, um pedagogo, um guia, um orientador que auxilia os alunos nos respectivos partos intelectuais, que os estimula a parir ideias que, nas suas mentes, estavam em estado de latência e que, por esta forma de amor à sabedoria, são espicaçadas e, então, brotam para o estado manifesto.
Descreva, sucintamente, as obras poético-literárias que publicou até agora.
São obras de cariz eminentemente filosófico. Aliás, devo confessar-lhe que foi justamente a Filosofia, assim sentida e vivida, que me abriu o caminho para a poesia, para a prosa poética e para a literatura. Estas sementes começaram a germinar com mais visibilidade aquando da feitura do curso de mestrado em “Estética e Filosofia da Arte” e, sobretudo, durante as investigações realizadas para a tese de Doutoramento em curso, dedicada – a partir do pensamento de Martin Heidegger – à poesia e ao canto dos poetas, perspectivado ecologicamente.
Concebe-se a poesia enquanto forma privilegiada da arte se dar (para Heidegger, e para mim também, toda arte é poesia), como a forma explícita de salvaguarda da Terra, como o grande grito universal do pensamento contra as investidas do projecto da ciência-técnica modernas que minam e corrompem a Natureza, provocando constantes desequilíbrios eco-sistemáticos. E, deste modo, como meio de alerta para a necessidade de se redimensionar e reestruturar uma outra humanidade, cujo pensamento não seja mais inconsciente e calculista, e cujas mãos não sejam mais exterminadoras.
Cada obra minha publicada em antologias poético-literárias nacionais e internacionais, exprime estas preocupações, esta minha forma de auscultar o mundo humanamente e em plena harmonia com a Natureza, onde me integro ou não, completamente, quer me refira a “Vide-Verso”, “Roda Mundo 2008”, “Poiesis” ou “Roteiro(s) da Alma”.
Nelas, pode ler-se, entre outras, “Quantos são os mistérios da escrita”, “Nas montanhas do coração” (ensaio sobre o poeta alemão Rainer Maria Rilke), “Advém o turbilhão dos sentidos”, Ouso ousar o tudo”, “Abomino o egocentrismo”…
Qual o tema dominante na sua escrita?
Movo-me por vários temas e autores, de âmbito muito diverso. Tanto escrevo sobre Heidegger, Nietzsche, Kant, Platão, Freud ou Piaget, no âmbito da Filosofia /Psicologia, ou sobre Vergílio Ferreira, Fernando Pessoa(s), Padre António Vieira, Rainer Maria Rilke ou Holderlin, nos domínios da literatura e da poesia.
Talvez por influência dos assuntos centralmente abordados por estes autores, que venho estudando ao longo de todos estes anos, escreva, com particular incidência, sobre a vida e a morte, sobre o estado actual da Humanidade e da Natureza, sobre a linguagem, o pensamento e o acto de escrever, sobre o amor, o mistério, a criatividade, a arte ou a identidade, a hipocrisia, os preconceitos e a inveja, que muito me atormentam…
Como caracteriza a sua próxima obra “Vozes do Pensamento – Uma Obra para Espíritos Críticos”, cujo lançamento está previsto para o próximo mês?
Esta obra, a primeira individual que publico em Portugal, composta por duas partes, “Interiores” e “Versões de Mundos”, exterioriza, precisamente, e como o próprio título indica, as vozes que há muito ecoam dentro do meu pensamento, que viaja, por vezes, hiperbolicamente, por todos os lugares, nessa eterna busca pela verdade e pela sabedoria, pelas essências das coisas que, amiúde, se nos ocultam. Talvez esteja a fazer Filosofia através da poesia, como sugerem alguns dos meus leitores.
São pensamentos dispersos, vividos e por viver, projectados, sonhados ou recordados, sobre temas que o meu pensamento foi ditando e as minhas mãos escreveram.
Trata-se de um desabafo da minha alma e do meu corpo sobre mim mesma, e sobre o mundo, tal como ele é e se me apresenta em todas as suas dimensões que, quiçá, corresponde a muitos desabafos da grande generalidade dos seres humanos.
É um livro intimista, onde podem ler-me, integralmente, na mais pura transparência do meu (vosso!?) ser e existir, pensar e sentir. Também altruísta, onde os actos ignóbeis dos homens são condenados, dos pontos de vista ético, social e político, e os seus nobre feitos celebrados.
Nada mais vou adiantar sobre este livro, para que os meus eventuais leitores (espero que sejam muitos), adolescentes, jovens e adultos, descubram, por si próprios, o espírito que o percorre e, quiçá, nele se vejam ou revejam, como num espelho, e se redescubram, sem narcisismo.
Estas “Vozes” ainda não se silenciaram. Far-se-ão ouvir, ainda mais alargadamente, nos meus próximos três livros, já no prelo: “Entre-Corpos”, “Fluxos da Memória” e “Mundos do Ser e do Não-Ser”.
LEGENDA DR: “Lamentavelmente, a sociedade actual está afastada das lides filosóficas”
FIM
domingo, 24 de janeiro de 2010

A exaltação da palavra como elemento de persuasão
Por Isabel Rosete
Padre António Vieira é, seguramente, um grande homem das letras lusófonas que jamais poderemos esquecer. Quem ainda não o conhece não deve tardar em ler os seus escritos, não deve adiar a escuta a sua Alma – tão imensa quantas as paragens do Mundo onde esteve/está presente – seguindo, com este peregrino, os caminhos por si sabiamente indicados em «O Sermão de Nossa Senhora do Ó» e a «Liturgia de Nossa Senhora», duas obras absolutamente magníficas pela sua inteligência, sagacidade e pertinente actualidade.
Na primeira, logo no primeiro parágrafo do Capítulo I, pode ler-se: «A figura mais perfeita e mas capaz de quantas inventou a natureza, e acolhe a geometria, é o círculo. Circular é o Globo da terra, circulares as esferas celestes, circular toda esta máquina do Universo, que por isso se chama orbe, e até o mesmo Deus, se sendo espírito, pudera ter figura, não havia de ter outra, senão a circular (...)». No segundo capítulo, da obra mesma, escreve, ainda, o sábio Padre: «Uma das Maiores excelências das Escrituras Divinas, é não haver nelas nem palavra, nem sílaba, nem ainda uma só letra, que seja supérflua, ou careça de mistério».
Eis uma das grandes lições para todos nós, leitores, escritores, amantes da escrita, como forma privilegiada de comunicação e de interacção com Mundo, arautos da palavra falada, enquanto meio de explicitação dos pensamentos, dos sentires e dos saberes e, sem dúvida, como instrumento do esclarecimento e persuasão das mentes: a da perfeição, metaforicamente simbolizada pela figura geométrica do círculo – assim também já pensada pelos gregos.
Mas a “perfeição de quê?”. Poderá perguntar o leitor. A resposta é tão simples, quanto complexa: a perfeição hermenêutica da linguagem, possibilitadora da leitura do dito e o não dito; a perfeição da consciência de que a escrita não pode, ou melhor, não deve, ser supérflua, vazia de conteúdo explicito, enredada num certo jogo linguístico, onde as palavras remetem apenas uma para a outras e não mais para as coisas que naturalmente devem designar com clarividência.
A verdadeira escrita – e o autêntico discurso oral dela advindo – exige que cada proposição seja devidamente pensada em cada pormenor que o pensamento dita e a mão expõe no papel em branco que, nem tudo deve acolher, de molde a informar o interlocutor, tão-só, do que é estritamente necessário, com a objectividade do entendimento aberto, sem pré-conceitos, sem devaneios intelectuais enfadonhos, sem composições frásicas rebuscadas, que afastam do prazer do texto, até mesmo o mais devoto dos leitores.
A palavra é o elemento essencial de persuasão do discurso. E os fazedores de política, tal como Vieira, sabem que só é fixado pela memória dos auditores o que pretendemos que por eles seja interiorizado, sempre que utilizamos os vocábulos apropriados, em função da mensagem que, conscientemente, desejamos incutir.
As palavras estimulam, de facto, mas somente em função do poder retórico, demagógico – mas não necessariamente falso (antes pelo contrário, quando o discurso é digno) – que lhe queiramos incutir, embora nem sempre ao alcance de uma exegese depurada, ao mesmo tempo que guiam a mente dos ouvintes para o objectivo previamente visado por quem as pronuncia.
Como sublinha Luís Madureira, «se no Canto gregoriano a palavra é exaltada pela linha melódica, e da simbiose do discurso verbal com o discurso musical nasce uma compreensão melhor da mensagem, no discurso de Vieira a palavra conduz-nos para a frase e para uma musicalidade não expressa, mas que, poderíamos dizer, sustenta todo o texto. Juntar estas duas formas expressivas, cuja enorme elaboração visa num caso a exaltação de uma ideia, no outro a comunhão de ideias através de uma estratégia de persuasão, não é mais do que tentar aproximar dois momentos em que se pretende uma compreensão outra, ou uma compreensão melhor da palavra que nos é oferecida. É a compreensão que só é possível quando a matéria sonora que utilizamos todos os dias, pelo trabalho de um especial artífice, se transforma em obra de arte e, nessa transformação, nos permite compreender ou sentir algo mais sobre o mundo e sobre nós que só a arte, justamente, sabe exprimir.»
Lançado o repto, descubra por si mesmo, caro leitor, lendo, meditando, com toda a dedicação e espírito crítico, a escrita sublime que, para sempre, torna o Padre António Vieira mais actual do que nunca. Também, sem dúvida, um extraordinário exemplo para os políticos de hoje, de todos os tempos, que falam, amiúde, na vacuidade impura da linguagem.
Urge, por isso, consciencializarmo-nos de que:
No vazio das palavras
Ecoam todos os sons,
Todas as pausas,
Todos os silêncios.
As palavras são punhais,
Cristais,
Dardos,
Sementes de criação.
Despedaçam,
Espelham.
Reluzem,
Transluzem.
Persuadem,
Enfeitiçam.
Exortam,
Instigam…
Corpos
E almas,
À união,
E à dis-persão.
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